Ele fez dez..


Pedro desde pequeno sempre foi um menino muito calmo e gente boa. Sempre teve uma personalidade admirável, muito participativo, inteligente, alegre, solidário, amigo, bondoso, mas também impaciente às vezes, um pouco ansioso e ingênuo.

Pedro foi um menino muito desejado e esperado. Enquanto estava grávida fiz tudo o que podia para que ele viesse um menino muito calmo. Acho que naquela época ouvia tanto de outras mães que não iria dormir mais depois que ele chegasse, que desejei muito que ele viesse calmo e que dormisse a noite.

Lembro-me que fazia hidroginástica grávida dele e aquele era o nosso momento, a nossa conexão e a paz interior que sentíamos era maravilhosa.

E ele nasceu, dormindo. O médico teve que acordá-lo para que chorasse. Quando vi a cena, pensei: - ufa, meu pedido foi atendido.

A minha ilusão durou pouco, pelo menos até chegarmos em casa e nos adaptarmos a nova rotina. Logo Pedro estava adaptado e ele mamava e dormia. Nossa conexão era intensa e ficamos juntos até os seus cinco meses de idade, quando precisamos encarar a nossa primeira separação. Estava na hora do Pedro fazer o seu primeiro vôo solo e ir para escola.

Naquele dia quem precisou de mais colo e apoio fui eu, pois ele logo se enturmou com os bebês e sorria para todas as berçaristas.

Na escola, os relatórios sobre o seu desenvolvimento, comportamento e personalidade, sempre elogiavam a sua simpatia, seu jeito amigo e extrovertido, inteligente e esperto, aprendia tudo muito rápido. Para nós enquanto pais, o que mais nos chamava atenção era o fato dele ser adorado pelos amigos e pela maioria das crianças da escola. Ele era o popular, mas não no sentido de ser líder ou de querer aparecer, mas porque tem um carisma especial que o faz ser muito querido por todos.

Em casa, sempre gostou de jogos e brincadeiras que exigiam foco e concentração. Adorava montar quebras- cabeças, ler seus livros e brincar com os seus trens. Pedro era apaixonado por trem e trator.

Aos cinco anos, Pedro ganhou uma irmã e achávamos que ele ia dar trabalho e ficar com ciúmes, mas para o nosso espanto, ele encarou muito bem o desafio e seguiu a vida.

Ser mãe dele sempre foi muito fácil, pois bastava falar uma ou duas vezes e ele já obedecia.

Ele foi crescendo, chegou a mudança de escola, nossa mudança de país, uma nova língua, uma nova cultura. A mudança de país o fez ficar um pouco ansioso, com medo e nas primeiras semanas, revoltado. Afinal, foi uma bruta mudança para todos nós. Todos tínhamos perdido nossas referências, estávamos longe dos nossos amigos e familiares. Tudo era novo e desesperador. Mais uma vez, nos unimos e a nossa conexão novamente nos deixou mais calmos para encarar os desafios.

Eu que sempre fui uma mãe muito protetora, precisei encarar novamente a sensação de impotência. Pedro precisava fazer mais um vôo solo e encarar uma nova escola, com uma língua que ele não falava e sozinho. Aquele dia o tempo parou e minha angústia parecia não ter fim. Mas desta vez, Pedro não saiu sorrindo da escola e nem tinha feito amigos. Neste dia, com o coração despedaçado e me sentindo a pior mãe do mundo, tive que acolher meu filho, olhar nos seus olhos e dizer que estava muito orgulhosa da sua coragem e que tudo ia ficar bem.

Os dias foram passando e o Pedro foi usando os recursos internos que tinha para driblar os desafios e desbravar o novo mundo. E eu? Eu aprendendo com a coragem dele e sentindo um orgulho enorme de ser mãe daquele menino.

Pedro fez nove anos e seus brinquedos foram dando espaço para os vídeos games, revistas em quadrinhos, histórias de ação, desenhos mais elaborados e algumas gírias.

Aos dez anos, suas mudanças começaram a ficar mais intensas. Estávamos entrando na pré-adolescência?

Acho que sim. Ele agora escolhe ficar alguns períodos no seu quarto, briga com a irmã que não deve estrar em seu quarto (agora território proibido), seus desenhos e filmes são cheios de dramas, terror ou ação, suas mudanças de humor estão cada vez mais frequentes, sua preocupação com as pessoas a sua volta e com o que acontece no mundo, como injustiça, solidariedade e miséria são temas de conversas. Tomar banho, trocar de roupa, agora só de portas fechadas. A curiosidade pelo sexo oposto e pelo sexo. Uma pequena tendência na escolha das roupas ou o que vai usar.

Sua opinião e resistência às regras e ordem também tem sido cada vez mais nítido no dia a dia. Seu papel de irmão mais velho também aparece de vez em quando, quando precisa defender a irmã ou dar um conselho para que ela obedeça os pais.

Confesso que quando me dei conta que ele estava me apresentando uma nova fase, um novo vôo, fiquei um pouco amedrontada. Eu que sempre atendi pais e trabalhei muito tempo conversando e orientando adolescentes, estava com medo da adolescência bater na minha porta. Tinha um lado racional que sabia que todo o meu trabalho de base estava consistente e sólido para aguentar o tremor da fase que ia por vir. E o meu lado emocional temia por medos comuns, mas não pequenos a todos pais. Como seria meu filho no mundo dos adultos, agora tomando as suas próprias decisões? Será que ele se sairá bem frente a influência de outras pessoas? Como enfrentará os perigos da via? Quais questionamentos fará em relação a educação que recebeu? Ainda nos enxergará como seus heróis? Sofrerá desilusões amorosas? Quantas vezes irá errar até achar a solução?

Inúmeras questões e aflições passaram na minha cabeça. Eu sei que me adiantei em muitas questões que virão ainda muito mais a frente, mas sabe como é cabeça de mãe e ainda pensando no futuro de filho. Eu já estava pensando quando num futuro quando ele tivesse 20 anos e ele só estava fazendo dez. Era o início da pré-adolescência. Eu me sentia como se tivesse entrado na montanha russa e estava prestes a descer a primeira subida. Você tem vontade de desistir, mas não tem mais tempo.

Pode estar parecendo exagero este cenário de morte e medo que estou descrevendo, mas a verdade é que toda nova fase de um filho, encontramos um mundo novo que vem se descortinando, mas também vamos nos despedindo de algo que já era conhecido e adaptado. Há cada novo ciclo que se abre, um outro tem que se fechar.

O que estou descrevendo aqui nada mais é do que aquele momento que você se vê obrigado a sair da sua zona de conforto, mas morre de medo do desconhecido.

Passadas essas primeiras impressões e aflições deste começo, decidi que iria conhecer aquele novo garoto que estava se formando ali na minha frente. Resolvi aplicar tudo aquilo que dizia a outros pais, em minha casa.

Ainda estamos vivendo esse ciclo dos dez anos, mas tem sido maravilhoso poder permitir que ele tenha o seu próprio espaço para respirar e ficar sozinho com os seus pensamentos. Respeitar e ouvir os seus pontos de vista. Deixar que ele coloque limite no seu corpo e na sua sexualidade. Estar por perto para manter o canal de comunicação sempre aberto e fluindo. Aproveitar enquanto ainda sou a sua confidente para assuntos aleatórios. Ver que em alguns momentos aquela criança alegre e vívida ainda aparece e brinca de pega-pega com a irmã como se tivessem a mesma idade. Saber que o pai tem sido cada vez mais o seu exemplo de masculinidade e permitir que isso aconteça. Saber que sua identidade vem sendo reformulada a cada dia e entender que a base é solida e com certeza um homem de caráter e bom coração está por vir.

Deborah Garcia - Psicóloga e mãe do Pedro.

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